domingo, 11 de fevereiro de 2018

«Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico»




«A técnica de irrigação não é, na origem, mediterrânea. Nasceu em terras ainda mais secas e foi propagada no Sul da Europa por um povo da orla desértica – os árabes – depois de beneficiada com os aperfeiçoamentos que eles lhe introduziram. A forma mais frequente, usada nas grandes huertas espanholas, consiste em abrir um grande canal de desvio num curso de água caudaloso, que muitas vezes se vai procurar logo à saída da montanha: desse canal se faz derivar, através de regos de dimensões cada vez menores, a água para todos os talhões de cultura. Este processo, tão simples quanto engenhoso, exige trabalho aos homens mas dispensa grandes capitais. Ao mesmo tempo implica, no aproveitamento das águas e na conservação dos regos, forte disciplina, respeito de direitos e cumprimento de obrigações. O tribunal de águas é uma organização inseparável destas culturas de regadio.
A par destes processos colectivos, existem várias formas de elevar a água de charcos, poços e ribeiros. A cegonha ou picota, figurada já na Assíria e no Egipto do Império Novo, manejada a braço de homem, a roda elevatória movida pela própria corrente, a nora de tradição mourisca são instrumentos que se prestam à cultura familiar e à pequena exploração.»
«A poça no alto do barranco, ligada quase sempre a uma nascente, e a série de canais dispostos nas encostas quase segundo as curvas de nível parecem constituir o processo mais antigo, usado já no Noroeste em tempos pré-romanos, onde a água de rega permaneceria, desde então, em regime de propriedade comunitária. Foram talvez os romanos que introduziram um instrumento elevatório mais divulgado entre nós, a cegonha, engenho ou picota, que tanto se vê em poços ou charcos como na margem dos rios. Os árabes trouxeram a nora, puxada por animais, dominante no Algarve …»
«Os socalcos, com que se quebra o pendor das encostas e se retém a terra arável, constituem um traço bem marcado em todas as paisagens do Noroeste e da Beira. Estas admiráveis construções, que intrepidamente galgam as serras até 700 ou 800 metros de altitude, exigem um esforço penoso e vigilante: porque as enxurradas e um Inverno mais chuvoso abrem nelas grandes sulcos, por onde toda a obra se desmoronaria se não fosse rapidamente reparada. Também aí se pratica a rega pelo processo da poça e dos canais em níveis sucessivamente menos elevados, de modo que a água, recolhida no alto do barranco, fertiliza-o e percorre-o de cima a baixo.
A difusão da cultura do milho foi sem dúvida o motivo de se divulgarem os socalcos, depois aplicados a culturas de sequeiro que se expandiram em data mais recente …»
«Os instrumentos de moer o grão têm todos origem mediterrânea; a própria mó manual (molineta), ainda usada no Algarve, por exemplo, como na Espanha e no Magrebe, que deve à sua simplicidade emprego muito geral, persistiu neste ambiente em extremo conservador. Os romanos trouxeram o moinho de água, de rodízio horizontal; os árabes, a azenha, de roda vertical, mais potente, ambos movidos pela força da corrente de rios e ribeiros, que é preciso reter por meio de açudes e desviar por canais; as relações medievais com o Oriente divulgaram, no tempo das Cruzadas, o moinho de vento…»
«Os meios de transporte levam-nos à época romana, com o plastrum, antepassado do carro de bois de eixo móvel de madeira e roda cheia ou pouco vasada, o carpentum, de roda radiada, representado pelo pesado carro alentejano. Isto não quer dizer que a introdução do carro, documentado aliás na arte rupestre da Estremadura espanhola desde o calcolítico, se fizesse nesta época, mas é nela que os actuais encontram os seus paradigmas.
O eixo móvel e a trcção pelos bois desapareceram do Alentejo ainda não há um século, sunstituidos pelo carro de muares, animais também empregados nos trabalhos agrícolas. (…) No Norte persiste todavia o tipo primitivo, e o boi é o único animal atrelado, por meio de jugos ou cangas, consoante os caminhos requerem mais ou menos firmeza no puxar e equilíbrio na posição do carro.»
«As ceifas do Alentejo atraem grandes camaradas de trabalhadores. Sob direcção de um manageiro, vindos anos seguidos dos mesmos lugares, os ratinhos descem das montanhas mais pobres de Portugal: pequenos, delgados e nervosos, investem com denodo as searas mais opulentas.»
«O Norte transmontano. Quer se entre em Trás-os-Montes pela estrada de Braga a Montalegre, ao longo das vertentes do Cávado, quer se atravesse o Marão, o contraste é nítido. A paisagem carrega-se de tonsseveros, cinzentos, acastanhados. A luz torna-se mais crua, a terra mais dura e a gente mais retraída. Na mole ondulação do terreno, perde-se muitas vezes o sentimento da altitude: montanha ou planura? …»

Alguns apontamentos retirados do livro «Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico» de Orlando Ribeiro (1941)

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