Os nossos escritores: A Cigana



São apenas sessenta páginas de “Linda da Serra”, edição de autora. Mas, é uma corrente límpida de beleza e simplicidade que, por vezes, entontece de encanto. Sim, belo e simples, porque o belo banha-se sempre de simplicidade. Nesta corrente, há ondas de mística, e a mística expressa-se no sublime. Este, que é normalmente indizível, torna-se palavra neste livrinho, porque envolve a vida e toca a transcendência: “Toda a palavra é pouca para falar do indizível, para mostrar o inefável... a beleza que têm as coisas simples não passa pelo discurso e tão só pela comunhão de um sentimento partilhado no silêncio...” (pág. 42). Como escreve a autora na contra-capa: “Este pequeno texto mistura prosa com poesia sobre a mesma temática: a saga da vida e a mística da experiência...”. E, assim, torna-se “palavra”. Toda esta obra se banha de divino: “O nosso dono é o ontem, o “hoje e o amanhã. É Deus, Criador e Senhor de tudo quanto existe...” (p. 55). Mas é também muito humana: “Quando casada civilmente me preparava para descer ao Alentejo, vislumbrei que, de novo, me enganara no caminho... Afinal, nunca vivi com o noivo e nunca nos casámos verdadeiramente, porque só há casamento diante de Deus. Os papéis para mim nada significam…” (p. 56). O livrinho é um triângulo amoroso: a Cigana, a Autora, o Alentejo: “Este pequeno livrinho conta a história de uma égua, a Cigana, e não menos importante, é a história paralela de alguém que quis experimentar a vida num Monte Alentejano muito antes de se ter apaixonado” (p. 4). …, portanto, biográfico, real, até porque “a perfeição é um ideal, um valor absoluto; nós somos seres finitos sujeitos a cair... Falhamos e erguemos o rosto na direcção do Poente...”. Li e reli, porque o belo, por vezes, não se capta à primeira, sobretudo os dois capítulos mais belos: “O Amanhecer no Monte” e “O Pôr-do-Sol no Monte”, e ainda os três poemas. São testemunhos de simplicidade, autenticidade (e de beleza) os capítulos mais biográficos “O Dono da Cigana” e “A Cigana e Nós”. Para terminar esta tentativa de análise de uma obra que me tocou (e uma análise não é necessariamente descomovida) mais uma citação exemplar: “Dentro do Monte, o sol arredondado e livre aqueceu o Lar e a lua baila frente á porta atravessando a escuridão, iluminando o rosto dos que esperam o último Sol, Fonte de Luz, Criador e Senhor de toda a Vida”. Não perca, leitor, a oportunidade de se banhar na luz deste belo livro.









Páscoa Feliz

 



 



 


 


 


 


 


 


 



 


 


 


Hoje o Compasso Pascal passou pelos lugares de Soutelos , Paradinha, Frades, Arco, Quintã, Vale, Vila, Picota e Tojeira, amanhã por Espindo , Zebral, Botica e Santa Leocádia; a todos uma PASCOA FELIZ!


 


Bem hajam.


 


 

Cafe Lanterna - Reabertura

 



 



 



 



 


 


Aproveitando a época festiva que atravessamos, de registar e felicitar a reabertura do Café Lanterna. Ao Marco e à Mara, os nossos desejos de boa sorte.


 

O Mutilado de Ruivães












Mais precisamente no Século XIX o romance histórico floresceu e marcou sua época.

Mas, de quando em quando, num eterno vaivém de ressaca de mar, ele vai aparecendo aqui e acolá. È que, singularmente considerado, este género literário transporta sempre cargas ou motivações ideológicas, estéticas ou culturais.

Assim, importa atender aos pendores naturais dos estudiosos na prospecção dos factos históricos das diversas fontes de informação.

E convém desde já esclarecer que, no caso presente, foi a tradição oral, uma das fontes primárias, que mais cuidadosamente foi desenvolvida e confrontada, sempre na mira de achar a verdade.

Este género criou, desde logo, raízes fundas na alma do Povo, nesse povo que tanto acarinha e sente as gestas e as virtudes dos seus Maiores. Só isto bastaria para formar o conceito e, até, uma filosofia da história, como ponto de partida para a narração de «o todo» duma Grei que lhe deu fixidez, beleza, alma e vida na perenidade gráfica do prelo.

Decididamente, o romance histórico é um juízo de valor didáctico-pedagógico, e da maior importância cultural e sentimental.

Bifurcado em objectivos diferentes, este trabalho nada tem a ver com literatura mais ou menos engenhosa, nem prossegue fins materiais.

Negar, em suma, merecimento ao romance histórico é enveredar por um cepticismo tal que mais valeria dobrar a finados por quem assim o julga e pensa porque, esse, já se estrangulou vítima do seu raciocínio estático.

 Exacto. Quebre-se o pragmatismo, jogue-se na opinião da crítica. E, segundo os cânones, a uma só voz, proclame-se:



NlHll. OBSTAT. IMPRIMATUR





LIVRARIA CRUZ

BRAGA







Nota de abertura:



A história das pequenas terras vai ficando esquecida diante de certos fenómenos sócio-económicos, derivados do urbanismo avassalador; apagam-se da lembrança dos homens os feitos dos seus antepassados; olvidam-se os fastos de outrora; morre a gesta da tradição, a prática das virtudes ancestrais, a nobreza dos bons costumes regidos na austeridade de princípios morais ainda hoje indiscutíveis, que foram as pedras com que se construiu a Nação, a fizeram grande e a levaram a expandir-se pelo Mundo. Morreu no coração dos homens a poesia que envolve as coisas belas que o Passado nos legou; secaram-se as fontes que nasciam da alma e corriam límpidas para o mar da fantasia e do sonho, mas que ajudavam a viver.