Memórias Paroquiais de 1758: perguntas


Interrogatório ou inquérito a que os párocos responderam:

"1. Em que província fica, que bispado, comarca, termo e freguesia pertence?

2. Se é d'el-rei, ou de donatário, e quem o é ao presente?

3. Quantos vizinhos tem e o número das pessoas?

4. Se está situada em campina, vale, ou monte, e que povoações se descobrem dela, e quanto dista?

5. Se tem termo seu, que lugares ou aldeias compreende, como se chamam, e quantos vizinhos tem?

6. Se a paróquia está fora do lugar, ou dentro dele, e quantos lugares, ou aldeias tem a freguesia, todos pelos seus nomes?

7. Qual é o orago, quantos altares tem, e de que santos, quantas naves tem; se tem irmandades, quantas, e de que santos?

8. Se o Pároco é cura, vigário, ou reitor, ou prior, ou abade, e de que apresentação é, e que renda tem?

9. Se tem beneficiados, quantos, e que renda tem, e quem os apresenta?

10. Se tem conventos, e de que religiosos, ou religiosas, e quem são os seus padroeiros?

11. Se tem hospital, quem o administra, e que renda tem?

12. Se tem casa de Misericórdia, e qual foi a sua origem, e que renda tem; e o que houver notável em qualquer destas cousas?

13. Se tem ermidas, e de que santos, e se estão dentro, ou fora do lugar, e a quem pertencem?

14. Se acode a eles romagem, sempre, ou em alguns dias do ano, e quais são estes?

15. Quais são os frutos da terra que os moradores recolhem em maior abundância?

16. Se tem juiz ordinário, etc., câmara, ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra, e qual é esta?

17. Se é couto, cabeça de concelho, honra, ou beetria?

18. Se há memória de que florescessem, ou dela saíssem, alguns homens insignes por virtudes, letras, ou armas?

19. Se tem feira, e em que dias, e quantos dura, se é franca ou cativa?

20. Se tem correio, e em que dias da semana chega e parte; e, se o não tem, de que correio se serve, e quanto dista a terra onde ele chega?

21. Quanto dista da cidade capital do bispado, e quanto de Lisboa, capital do reino? Se tem algum privilégio, antiguidades, ou outras cousas dignas de memória?

22. Se há na terra, ou perto dela alguma fonte, ou lagoa célebre, e se as suas águas tem alguma especial qualidade?

23. Se for porto de mar, descreva-se o sítio que tem por arte ou por natureza, as embarcações que o frequentam e que pode admitir?

24. Se a terra for murada, diga-se a qualidade de seus muros; se for praça de armas, descreva-se a sua fortificação.

25. Se há nela, ou no seu distrito algum castelo, ou torre antiga, e em que estado se acha ao presente?

26. Se padeceu alguma ruína no terramoto de 1755, e em quê, e se está reparado?

27. E tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório?

Na segunda parte pretende-se saber o seguinte sobre a serra:

1. Como se chama?

2. Quantas léguas tem de comprimento, e quantas de largura; onde principia, e onde acaba?

3. Os nome dos principais braços dela?

4. Que rios nascem dentro do seu sítio, e algumas propriedade mais notáveis delse; as partes para onde correm, e onde fenecem?

5. Que vilas e lugares estão assim na serra, como ao longo dela?

6. Se há no seu distrito algumas fontes de propriedades raras?

7. Se há na serra minas de metais, ou canteiras de pedra, ou de outros materiais de estimação?

8. De que plantas, ou ervas medicinais é a serra povoada, e se se cultiva em algumas partes, e de que géneros de frutos é mais abundante?

9. Se há na serra alguns mosteiros, igrejas de romagem, ou imagens milagrosas?

10. A qualidade do seu temperamento?

11. Se há nela criações de gados, ou de outros animais, ou caça?

12. Se tem alguma lagoa, ou fojos notáveis?

13. E tudo o mais que houver digno de memória?

E sobre os rios que passarem na terra, procura-se saber:

1. Como se chama, assim o rio, como o sítio onde nasce?

2. Se nasce logo caudaloso, e se corre todo o ano?

3. Que outros rios entram nele, e em que sítio?

4. Se é navegável, e de que embarcações é capaz?

5. Se é de curso arrebatado, ou quieto, em toda a sua distância, ou em alguma parte dela?

6. Se corre de norte a sul, se de sul a norte, se de poente a nascente, se de nascente a poente?

7. Se cria peixes, e de que espécie são os que traz em maior abundância?

8. Se há nele pescarias, e em que tempo do ano?

9. Se as pescarias são livres, ou de algum senhor particular, em todo o rio, ou em alguma parte dele?

10. Se se cultivam as suas margens, e se tem muito arvoredo de fruto ou silvestre?

11. Se tem alguma virtude particular as suas águas?

12. Se conserva sempre o mesmo nome, ou o começa a ter diferente em algumas partes, e como se chamam estas, ou se há memória de que em outro tempo tivesse outro nome?

13. Se morre no mar, ou em outro rio, e como se chama este, e o sítio em que entra nele?

14. Se tem alguma cachoeira, represa, levada, ou açudes que lhe embaracem o ser navegável?

15. Se tem pontes de cantaria, ou de pau, quantas e em que sítio?

16. Se tem moinho, lagares de azeite, pisões, noras ou outro algum engenho?

17. Se tem algum tempo, ou no presente, se tirou ouro das suas areias?

18. Se os povos usam livremente das suas águas para a cultura dos campos, ou com alguma pensão?

19. Quantas léguas tem o rio, e as povoações por onde passa, desde o seu nascimento até onde acaba?


20. E qualquer outra cousa notável que não vá neste interrogatório."





Porta




Festas de Ruivães 2014: Procissão na Picota




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«A divisão das águas»


A utilização das águas serranas para a irrigação dos campos e o fornecimento energético nas azenhas desempenhou sempre um papel relevante na montanha minhota. A cada comunidade pertenciam uma ou várias bacias de recepção de ribeiras, que sustentavam um sistema comunitário de rega, em pleno funcionamento durante o Verão. As águas das ribeiras e numerosas fontes da serra eram divididas pelos vizinhos, conforme a área de cultivo possuída por cada proprietário ou unidade de exploração.
Este sistema vigorava na Serra da Cabreira e ainda se mantém na maior parte das freguesias serranas. Mas é sobretudo na freguesia de Ruivães que a divisão das águas entre comunidades levantava mais problemas, já que os baldios são repartidos entre várias aldeias, situadas a altitudes diferentes.
Pode observar-se nas figuras 31A e 31B que os campos cultivados em Ruivães-Quintã, Vale e Botica, têm uma posição desfavorável para usufruição das águas dos seus montes. A área baldia de Ruivães, localizada a Noroeste do actual perímetro florestal até à Serradela, possui apenas pequenas ribeiras com caudal insuficiente para a irrigação estival. As águas eram também captadas na parte oriental da freguesia, onde, no início do século XIX, havia uma levada. Mas esta levada foi contestada por Campos, porque as águas que a alimentavam vinham das ribeiras do seu logradouro. Durante o reinado de D. Maria II, foi resolvida a questão das águas em tribunal, e Ruivães passou a comemorar o acontecimento por uma festa anual. Apesar de não ser muito remota, a comemoração mostra a importância do sistema da divisão das águas. A tradição oral que se segue foi-nos contada por vários inquiridos, mas não foi possível averiguar com mais pormenores a data exacta dos acontecimentos.
Os lugares de Linharelhos e Lamalonga da freguesia de Campos revindicaram para o seu próprio uso as águas dos regos que eram captadas para a levada de Ruivães. Logo se repara nas figuras 31 que, para Ruivães, esta revindicação ameaçava a rega dos seus campos. Além do mais, os vizinhos não tinham o direito de utilizar as águas dos afluentes mais importantes da margem esquerda do Rio da Lage, pertencentes a Espindo e Zebral. No tempo de D. Maria II, as contendas entre vizinhos de Ruivães e de Campos foram para tribunal, que deliberou a favor dos primeiros. A tradição diz que os povos de Ruivães traziam sempre uma imagem de S. Bartolomeu escondida num cesto, quando assistiam às sessões judiciárias. Logo a seguir ao processo, o santo tornou-se padroeiro da levada, por Ruivães e os outros lugares continuarem a gozar das águas da parte oriental da serra.
A Comissão da levada do Poço Longo - ou Comissão de S. Bartolomeu -promove ainda todos os anos uma festa no dia 24 de Agosto, em que se comemora este santo, "com sermão e missa cantada". Também neste dia é "leiloada" a água, no intuito de se arranjarem fundos para a conservação da levada. Outra função essencial da Comissão consiste em marcar o "Dia do Pardinho", durante o qual os compartes, "de sachola e de farnel", vão até ao Rebolar e à Senhora dos Aflitos, situados na bacia de recepção da Ribeira de Lamas que, a latitude da Chã de Coelhos, passa a ser o Rio da Lage. Todos os regos são então canalizados para a levada, já que estas águas lhes pertencem por ordem do tribunal.
A fixação deste dia não é rígida, mas depende das condições climáticas do fim da Primavera. O costume diz que as águas são de Ruivães, da S. João (24 de Junho) a S. Miguel (29 de Setembro). Nos finais deste mês, as primeiras chuvas, aumentando o débito das águas, destroem todas as canalizações artificiais feita no "Dia do Pardinho", retomando as águas o seu curso natural e voltando a serem utilizadas por Campos. Contudo, se o Verão estiver muito seco, Campos e Ruivães encontram sempre medidas de conciliação, tal como aconteceu em 1985 em que, depois de Agosto, as águas foram para os lameiros de Lamalonga (Campos)


NICOLE DEVY-VARETA

A FLORESTA NO ESPAÇO E NO TEMPO EM PORTUGAL: A arborização da Serra da Cabreira (1919-1975)

Dissertação de Doutoramento em Geografia Humana apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto

PORTO

1993






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Árvore




Perto da Ponte da Mua

Festas de Ruivães 2014: Alvoradas da Cabreira





Em Meães, actual Avenida de Santo Amaro.

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