Março 2019



Entrudo 2019:

S. Cristóvão - série de fotografias tiradas num passeio dominical: 

Fotografias avulso:

Outras coisas: 
S. Cristóvão 1923, pelo Padre José Carlos Alves Vieira - www.ruivaes.com/2019/03/s-christovao.html
S. Cristóvão 2019, por Paulo Miranda: www.ruivaes.com/2019/03/s-cristovao_31.html

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Recortes d' O Jornal de Vieira:

Outras coisas da actualidade:
Rally de Vieira do Minho passou na freguesia www.ruivaes.com/2019/03/rali-de-vieira-do-minho-passa-na.html
«Portugal Chama: limpe os seus terrenos» www.ruivaes.com/2019/03/portugal-chama-limpe-os-seus-terrenos.html
Número de Eleitores em 31 de dezembro de 2018 www.ruivaes.com/2019/03/numero-de-eleitores-em-31-de-dezembro.html


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S. Cristóvão



(carregar na imagem para maior visualização)


Depois da publicação há dias do relato que o Padre José Carlos Alves Vieira publicou no seu livro de 1923, resolvi escrever algumas linhas actualizadas, quase cem anos depois​. Sendo certo que não ​terei o mesmo dom de prosa que o autor, tentarei compensar isso com o facto de não precisar de cicerone para uma visita ao cemitério de ​S​Cristóvão. 


Há quase 30 anos que visito o local, desde que com 12 ou 13 anitos nas férias com a minha irmã, a Babi, o Ricardo e a Eliana começamos a explorar as cercanias de Ruivães. Antes desses passeios exploratórios ouvíamos o Sr. José "do Silvino", que nos fazia ​sempre ​a contextualização do sítio bem como ​a indicação d​os melhores acessos.​ Ao longo destes anos perdi a conta de quantas vezes subi ao alto de S. Cristóvão. Sozinho ou acompanhado foram inúmeras as vezes. A última das quais levamos pela primeira vez a Laura que, com os seus 4 anos, só saberá disto quando vir esta fotografia.


Contrariamente ao referido pelo Padre José Carlos e no​utro​ documento de 1906, não me recordo que o local esteja mais degradado agora do que há 30 anos. É certo que o tôjo, a giesta e algumas silvas têm vindo a ganhar terreno mas creio que o local permanece imutável. Há cerca de dez-doze anos ainda vi milho plantado no terreno central, mas nos últimos anos até os pinheiros que circundavam todo o espaço foram cortados sem haver plantação nova.


A paisagem que o Padre José Carlos descrevia como  uma "vista onde se delicia num vasto horizonte, cheio de verdura e de luz", continua igual, embora agora marcada por postes e linhas de alta tensão que ​das subestações de Frades e da Botica seguem junto ao Cávado até às grandes cidades. Do penedo que "emergia no centro do local" vislumbramos as aldeias da freguesia de Cabril bem definidas na encosta da Serra do Gerês​Para o outro lado, as nossas aldeias de Espindo e Zebral e os "contrafortes" da Cabreira ....


Os acessos a S. Cristóvão melhoraram nos últimos anos, fruto de intervenções das Juntas de Freguesia, Junta de Agricultores e da empresa Aguas do Ave (hoje Aguas do Norte). Aquando da construção do dep​ósito de água por esta empresa alargou-se o caminho da Botica e hoje é possível chegar bem perto do local com uma viatura ligeira. ​O​ acesso pela Portela de Paredes também foi calcetado há cerca de 15 anos.


Nas primeiras incursões lá vimos os bocados de tijolo "evidente sinal de ter por ali vivido gente". Destas últimas vezes não tenho encontrado nada, se calhar tapados pela vegetação​ ou falta de atenção​. Aquando d​o estudo ​feito nos finais dos anos 90 do século passado​ - início deste século, ainda se viam muitos pedaços de tijolo.

Não foram os "sete sábios do mundo moderno" conforme pedia o Padre José Carlos Alves Vieira mas foi o Núcleo de Arqueologia da Universidade do Minho​ que fez até hoje o mais completo ​estudo sobre o local. Referem o local como um povoado aberto que terá tido ocupação no período romano-suevo-visigótico e na idade média​ Estarão aqui as origens da actual aldeia de Ruivães, ao tempo, S. Martinho de Vilar de Vacas​. Ainda há muito para descobrir sobre este local que merece ser preservado tanto quanto possível. Por essa razão foi solicitada a sua classificação como sítio de interesse público, estando pendente de abertura de procedimento de classificação.

Subam a S. Chistovão  ​...



«S. Christovão»




«Mas não poremos ponto sem adicionar umas pequenas notas coligidas numa segunda visita a Ruivães: 
(…) 
O que ainda existe são evidentes vesdtígios de uma povoação no sítio denominado de S. Christóvão. É um pequeno outeiro, d’onde a vista se delicia num vasto horizonte, cheio de verdura e de luz. 
Caminhando para S. Christóvão, acompanhados do ilustrado parocho sr. P.e José António Fernandes Pereira, e do professor sr. Motta, os nossos olhos a cada passo lobrigavam bocados de tijolo, evidente signal de ter por alli vivido gente. Por alli, ou por perto, devia passar a estrada romana; que muito que a gente de então, romana ou lusitana, erguesse alli casas? A gente de então em alguma parte havia de viver, mesmo para fugir aos lobos.
Mas deixemos a sciencia aos sábios e oiçamos o que nos dizem os nossos ilustrados ciceroni.
No alto do dito local de S. Christovão, surgem-nos de chofre vestígios quasi apagados de uma civilização extincta, que teve os seus alicerces na Cruz. Foi alli – é a tradição – a antiga egreja parochial de Ruivães. No cume de uma penedia que emergia no centro do local, abriu-se uma cavidade, onde se enterrou a Cruz amiga e salvadora, a apontar para o Céu. A esse Calvario subia-se pela mesma penedia, a que se teriam aposto toscos degraus.
Logo adeante ficaria a egreja. Lá vemos ainda, escalonadas pelos muros das tapadas, algumas pedras lavradas. Há uma que parece ter sido a pia batismal. E ninguém fez caso d’aquillo. Os governos d’este pobre paiz, que pensam em tudo e não pensam em nada, os politicantes de má morte, estão à espera de que algum cabreiro boçal dê cabo da ultima pedra lavrada, do último vestígio de uma civilização que foi. Porque, saiba-se de tudo, muitos dos vivos ainda se lembram de haver no local mais pedras do que há hoje.
Mas a maravilha maxima do sitio são os chamados túmulos de S. Christovão, de que aliás já fala o nosso informador sr. A. C. A meio de um caminho, salvas de um vandalismo por milagre, estão duas pedras escavadas à maneira de tumulo, e com circunstancia de se estreitarem no sitio onde deviam encaixar os hombros e a cabeça do defuncto. Seriam túmulos árabes? Seriam túmulos christãos? É diffícil averigua-lo. Os sábios que por aqui andaram – Martins Sarmento, M. Capella, etc., - não sabemos em que sentido se pronunciaram. Alguns accrescentaram que eram túmulos de gente; e que eram de gentegrande, embora os túmulos sejam medianos; e aventam a hypothese de que quebrassem as pernas aos defunctos para eles caberem. Se a versão assenta em base histórica, desde já podemos garantir para a posteridade que os túmulos não eram de portuguezes; por mui pouco civilizado que um povo seja, há de respeitar os mortos. Aliás é selvagem.
Subam a S. Chistovão os sete sábios do mundo moderno – e tivesse elle sete! – e deslindem o tremendo mysterio.»

Retirado do livro «Vieira do Minho: Noticia historica e descriptiva» do Padre José Carlos Alves Vieira. Edição do Hospital "João da Torre". Ano: 1923.

Encosta do Tôco

Poldro


No sopé do Tôco

«RUIVÃES e o poeta Gonçalves Crespo»



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«Passando há dias, em Ruivães, a velha terra serrana do concelho de Vieira do Minho, que já teve honras de vila e até de concelho e onde, em 1837, se feriu a última batalha entre setembristas e cartistas, no termo das lutas constitucionais, lembramo-nos de que, numa das aldeias ali perto, nascera o pai do grande poeta Gonçalves Crespo, hoje quase inteiramente esquecido.
Embora visse a luz do dia no Rio de Janeiro, a verdade é que Gonçalves Crespo está preso ao distrito e até à cidade de Braga, por muitos e variados laços de sangue, de afecto e de ideologia. Tanto o avô como o pai eram descendentes de humildes famílias de lavradores do lugar de Zebral, da freguesia de Ruivães; um dos seus maiores amigos e mais directos companheiros de estudo em Coimbra e das boémias e lides literárias, ainda que um pouco mais velho do que, foi precisamente o poeta JoãoPenha, natural de Braga; colaborou nas folhas bracarenses; e aqui veio também a falecer, aí por alturas de 1870, o seu pai, de nome António José Gonçalves Crespo que, como tantos outros minhotos, havia emigrado na adolescência, primeiro para Lisboa e depois para o Brasil, em cata de fortuna.
Ñão foi decerto por mero acaso que se reuniram e articularam todas estas significativas coincidências. A alma, profundamente sensível, de Gonçalves Crespo, deve ter haurido no quadro geneológico da sua família e nas recordações e descrições que ela lhe transmitiu a seiva criadora da sua inspiração e do seu sonho de artista e de imaginativa. A mãe, uma indígena do sertão brasileiro, foi, sem dúvida, a suprema responsável pela sua ardente, tropical fantasia, pelo sopro de voluptuosidade que freme na sua obra e pelo sentido de cor naturalista das suas opulentas imagens, cinzeladas numa forma impecável, mas do pai, em cujos olhos nunca se extinguiram as lembranças dos montes, dos vales, das fragas e dos ribeiros da sua infância, à sombra dos contrafortes da Cabreira, herdou, directamente, a nostalgia, o bucolismo meditativo, a expressão idílica, a delicadeza amorosa e, afinal, o próprio culto íntimo e inalienável da poesia, que é, como definiu Antero de Quental, a «evidencia da alma».
Os seus versos dos «Miniaturas» e dos «Nocturnos», de transbordante espontaneidade, têm frescura, a elegância e a palpitação quase musical, no ritmo ondeante em que decorrem, de pequenas telas pintadas com tintas macias e fulgurantes, como nas admiráveis composições. «A venda dos bois», «Algum» e «O juramento do árabe» ou nos sonetos «Mater Dolorosa» e «Na aldeia». O seu coração desvenda-se com nitidez em cada motivo e a sua apurada sensibilidade estética vibra e denuncia-se no recorte gracioso de cada rima.
Pertencendo à galeria dos grandes poetas da segunda metade do século XIX, tão fértil em astros gloriosos, António Cândido Gonçalves Crespo, bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, deputado às legislaturas de 1879 e 1881, por um dos círculos da Índia (apesar de pouco o seduzirem as intrigas e as cizânias da política profissional, tão frequentes nesse tempo), redactor do «Diário da Câmara dos Pares», foi, antes de tudo, fundamentalmente, um poeta por vocação, por destino, sagrado no erço pelos deuses do Olimpo, como se lhe houvessem colocado uma lira de oiro entre os dedos inquietos do crioulo. Ao lado de António Feijó, Fernando Caldeira, conde de Monsaraz, Guilherme de Azevedo, Cesário Verde, Simões Dias, João de Lemos e João Penha, para só citarmos alguns que, de uma maneira ou de outra, mais se assemelham, nos temas ou nas características da métrica, pode dizer-se que encheu plenamente uma época, não obstante haver morrido, vítima de tuberculose, com menos de 40 anos de idade.
Delida pelo perpassar impiedoso do tempo, a sua memória, assinalada no cunhal de uma rua de Lisboa., em tributo de justiça póstuma, parece já nada representar para a história literária do nosso país e apostaríamos dobrado contra singelo que pouca gente saberá, não diremos no concelho de Vieira do Minho, mas até em Ruivães, que dali partiu, daquele obscuro alto de Zebral, o grande tronco paterno de onde emergiu uma das mais notáveis vergônteas da literatura nacional.
Nele havia um misto de subtis personalidades: o contemplativo de arroubos quase místicos, o parnasiano fascinado pelas coisas soberbas e decorativas da existência, o intuicionista que sabia dar ao poema uma fluência maviosa e uma plasticidade estrófica – e ainda o enternecido amigo e paladino das crianças, como o comprova esse encantador livro de contos que, em 1882, um ano antes de sucumbir, deu a lume, escrito de colaboração com sua mulher, a excelsa educadora Maria Amália Vaz de Carvalho, e destinado às escolas primárias.
O seu casamento – comunhão de dois espíritos superiores – trouxe-lhe a paz interior, o impulso construtivo das aves que começam a formar inebriadamente o ninho tépido do seu amor e essa ventura tranquila, diríamos casta, de dois temperamentos capazes de se entenderem e completarem no essencial, mas a morte, sempre escarninha para os poetas, não permitiu que a sua felicidade durasse muito: cortou-a cerce, brutalmente, como se a invejasse, transformando depressa a risonha claridade matinal na sombra caliginosa da noite, isto é: antes de terminar o ciclo natural do dia.
Enquanto o carro lestamente rolava pela estrada, agora atapetada pelas folhas caducas do Outono, que se desprendiam dos castanheiros e dos carvalhos como as quimeras da mocidade, um instante apenas verdejantes, tombam céleres nos nossos corações, íamos evocando mentalmente o obra, não muito extensa, mas bem representativa e flamejante, desse hierático cantor da mulher, da paisagem, do sol, dos aromas e de todas as emoções que o desdobrar da vida proporciona aos impressionistas do seu quilate.
No cenário agreste e luxuriante da imponente zona de Ruivães, com os seus maravilhosos contrastes entre os abismo, a floresta, os vales, a serenidade do céu, as cachoeiras, as penedias e os alcantis, a figura de Gonçalves Crespo avultou no nosso espírito com a força poderosa de uma ressurreição que se esboçasse na distância …
Posto que ali não nascesse, sorvera, através da hereditariedade familiar, tão longínqua, toda a beleza e todo o húmus daquele severo e colorido recanto do Minho, já na sua transição para Trás-os-Montes.
A sua musa, cálida e requintada, soubera interpretar, em filigranas primorosas, instintivamente, o próprio lirismo que a alma do pai, tão portuguesa, um dia levara para o Brasil, na aventura saudosa do emigrante minhoto. – A.M.»

Artigo publicado na «Crónica de Braga» do jornal «O Primeiro de Janeiro» de 5 de Novembro de 1964 e “transcrito, com a devida vénia” no jornal «Comércio de Vieira» nºs 1232 e 1233 de 25 de Novembro e 15 de Dezembro de 1964, respectivamente.

Tojo




S. Cristóvão




S. Cristóvão