quinta-feira, 29 de outubro de 2026

«OS IDOSOS E O MINI-LAR DE RUIVÃES»

 




«Na sociedade primitiva, os velhos eram objeto de veneração, os jovens a eles recorriam em busca dos seus conselhos, eram respeitados e lhes confiavam negócios. Em geral, as sociedades da antiguidade consideravam o estado de velhice dignificante e adotavam como sábio aquele que atingia aquela etapa. Passou a ser importante o papel de ancião, época terminal da vida, e aos que nela ingressavam era reservado um papel de intensa atenção nos destinos dos grupos sociais e na tomada de decisões importantes, ao ponto de, no século XVIII, o idoso ser tido como património e não como encargo.

A China proporcionava aos velhos uma condição singularmente privilegiada. A qualificação e a responsabilidade das pessoas aumentavam com os anos e no cume encontravam-se os idosos. Essa posição elevada refletia-se na família, sendo que toda a casa devia obediência ao homem mais idoso e a sua autoridade não diminuía com a idade.

Contudo, com a evolução e progressão em andamento e, fruto da revolução industrial, ocorre uma inversão de valores, em vez da sabedoria, passa-se a julgar o homem pela sua capacidade de produção – muito mais próximo do jovem – e, ao idoso começa a restar um lugar de exclusão e decadência.

Este fatalismo é-nos dado a conhecer a toda a hora e a todo o momento. Por um lado, a sociedade de consumo que remeteu para um plano muito distante as questões morais e sociais, com a destruição das instituições que garantiam a ordem social, nomeadamente a família. Por outro lado, o aumento da longevidade que, embora proporcione mais anos de vida, não garante melhores anos de vida, prolongando mais anos de inatividade, com a consequente incapacidade de resposta familiar e estatal, permitindo condições para o abandono, o isolamento, os maus-tratos, o sofrimento físico, psíquico e moral, etc, etc.., resultando na construção desenfreada de lares, agora designados ERPIs (Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas).

Serve este introito para centrar a atenção no Mini-Lar de Ruivães, onde me desloco com alguma regularidade para visitar a D. Senhorinha Amélia ali residente, minha sogra, que há dias celebrou 97 anos de idade. Uma SENHORA, filha da mística ponte da Mizarela que, do alto da sua provecta idade nos dá muitas alegrias pela sua boa disposição, com discurso rico e coerente, dando-nos verdadeiras lições de vida, com exemplos de tempos de dificuldade passados e por si testemunhados.

Um dos exemplos recentes e que fixei, resultou de uma observação feita sobre a sala daquele lar onde os idosos normalmente descansam e que serviu para comentar com ela e outra utente, esta sua companheira no dia a dia, que há ali utentes que dado o seu estado de dependência, necessitam efetivamente de muita atenção, obrigando a esforços redobrados das funcionárias. Eis que ela logo reage, de forma que considerei muita oportuna “… ainda bem que agora há estas coisas (lares) para dar alguma condição de vida a quem não pode. Noutro tempo, era ver quem já mal podia agarrado ao rabo da vaca mais mansa e ser puxado pelos caminhos e montes para andar…”. Era esta a realidade de outros tempos, não muito longínquos, no mundo rural da região, onde os recursos eram parcos e os mais fracos não tinham amparo, sendo obrigados a labutar até ao esgotamento total.

Aquela estrutura, com a designação de Centro Social Interparoquial de Campos, Ruivães e Salamonde, com as valências de Serviço de Domicilio (Idosos) e Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (Lar de Idosos e Residência), resultou da ideia original da criação da estrutura de apoio social pelo Monsenhor Alberto Gonçalves, cuja conclusão física do edifício do lar ocorreu no ano de 1998. E a história não se apaga, há que reconhecer que foi a visão social e o prestígio que o Monsenhor Alberto detinha enquanto Arcipreste de Vieira do Minho que validaram e impulsionaram o arranque jurídico e moral da instituição, que tem desempenhado o seu papel no apoio aos nossos idosos, tendo proporcionado as condições possíveis à satisfação das necessidades dos mesmos de forma digna e responsável; condições que resultam do empenho da gerência e funcionárias que se ocupam de os higienizar, alimentar, amparar nas suas deslocações internas, na toma da medicação e interação nas diversas atividades lúdicas.

Não se trata de uma estrutura que se possa considerar de excelência, até porque se encontra implantada num território de baixos recursos, onde acolhe e acompanha idosos com baixas reformas, mas é uma mais-valia inquestionável que desempenha um papel preponderante na freguesia e região, permitindo que com o seu funcionamento se encontrem respostas sociais para aqueles que delas necessitam e assim permitir que a reta final da vida não seja tão angustiante como aquela do tempo do “rabo da vaca”.

Infelizmente os nossos idosos já não representam a posição elevada na família como outrora, mas continuam a ser o único repositório humano de vivências e experiências que dão continuidade às gerações e nos dão verdadeiras lições de vida, porque foram eles que trouxeram o mundo até estes dias; que desbravaram montes, domesticaram animais; construíram muros; abriram caminhos; lavraram a terra; criaram riqueza e, por fim, nos proporcionaram condições para agora os sentarmos num cadeirão de um lar qualquer e assim vivermos a vida sem ouvir as suas lamúrias.

Contudo, o acolhimento no Mini-Lar de Ruivães não será uma fatalidade, mas uma necessidade resultante dos dias que correm. E também não será o abandono e o isolamento daqueles que para ali vão. E muito menos para aqueles que, de forma voluntária e consciente manifestam a sua vontade em ali passarem o resto dos seus dias, como aconteceu com a D. Senhorinha, de quem se espera, por mais alguns anos, o seu sorriso, a simpatia, a lucidez e a visão da vida através dos seus lindos olhos azuis.

Fernando Araújo da Silva
2026-10-14»

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