Ruivães nas Memórias Paroquiais de 1758











Freguesia de Sancto Martinho da Villa de Ruivaes.


Fica esta freguesia de São Martinho da villa de Ruivães na Província de Trás-os-Montes, e confontando immediatamente com a Província do Minho, pertencente à Comarca e Arcebispado de Braga, por estar no seu districto, de cuja freguesia, he cabeça, e matriz, esta mesma villa de Ruivães, termo da mesma.


Hé a dita vilia de Ruivães, de El Rei que Deos goarde, e se acha no limite da Serenissíma Caza de Bragança, sem que nela se conhecesse, em tempo algum, Donatário, e só sim Sua Magestade como Senhor della.

Tem a dita villa sessenta e oito vezinhos, e duzentos, e noventa e nove pessoas, não falando nas mais que estão dispersas pelos mais lugares da freguesia, os quaes abaixo se declararão, que por todas são oitocentas e sinquoenta pessoas de Sacramento.

Está situada em hum valle, sem que della se descubrão povoações, e só sim montes, e serras como ha da Cabreira, e passa da do Gerês.

Tem a dita villa de Ruivães seu termo, que comprehende os lugares seguintes: Quintã, que tem sete vezinhos; Valle, com quatorze vezinhos; Espindo, com vinte e oito vezinhos; Zebral, com vinte e nove vezinhos; Botica, com doze vezinhos; Santa Leocádia, com seis vezinhos; Soutêllos, com tres vezinhos; Frades, com quinze vezinhos; Campos, com trinta e sete vezinhos; Lama Longa, com vinte e nove; Linharelhos, com dez vezinhos; Caniçó, com quinze vezinhos; Fafião com vinte e tres vezinhos; Pincães com seis vezinhos; Ponte com hum vezinho; e Chã de Moinho com dous vezinhos; que por todos os vezinhos, que tem o dito termo, são trezentos e sinco.


Está a Paróchia e igreja matriz desta villa e freguesia de São Martinho da villa de Ruivães, na entrada da mesma vilia, vindo da parte do concelho da villa de Montalegre, e tem os lugares seguintes: Quintã: Valle; Espindo; Zebral; Botica; Santa Leocàdia; Soutellos e Frades.

He o Orago da dita Igreja matriz, São Martinho de Ruivaes, cuja Igreja tem sete altares, a saber, o altar mor, e seis colleteraes; no altar mor está collocado o Santíssimo Sacramento e a imagem do Santo do Orago; e os colleteraes, hum he de Nossa Senhora do Rozário, outro he do Santo Nome de Deos outro he de São Domingos outro he das Almas outro he de Sao Bartolomeu e outro he de sao Sebastiao; e na mesma Igreja ha a Irmandade das almas, e nenhua outra.

Hé Reitor o Parocho da dita Igreja, e da apresentação do Reitor da Santa Maria de Veade e tem de renda hum anno por outro duzentos mil réis.

Não tem Beneficiados, nem conventos de Religiosos ou Religiosas, nem Hospital, nem Caza de Misericórdia.

Tem esta vilia dentro em si tão somente hua Cappella particular do Cappitão mor da mesma, com a invocação de Nossa Senhora da Conceição e fora da mesma villa pegado quasi a ella, ha outra de Sancto Amaro, e mais desviado della, outra de São Christovão. E no lugar de Espinho outra de Santa Isabel, e no lugar de Zebral outra de São Pedro, e no lugar da Botica outra de Nossa dos Remédios, e no lugar de Frades outra de São Paio e nella também estão a Senhora do Amparo e São José, as quaes não são particulares, menos a da Senhora da Conceição, como já disse.

Não há romagens alguas a Santos, ou a capelas e ermidas desta villa ou cappellas da dita freguezia, sendo tão somente ao glorioso São Bartolomeu collocado esta igreja matriz, com o seu dia de vinte e quatro de Agosto, aonde concorrem muitas pessoas tão somente das freguesias circunvizinhas, e tam alguàs do Reino de Galiza, que estas e ainda muitas das outras vem a comprar sal, que ali vem em carros da beira mar.


Os fructos que nessa freguesia se recolhem em maior abundancia, he milho grosso, a que chamão mais, e miudo ou por outro nome albo, e tambem centeio, ainda que este he mais pouco; e juntamente se recolhe vinho de enforcado bastantemente verde, e àspero, com suficiente quantidade: excepto o do lugar de Frades desta freguesia, que esse he muito bom na qualidade de verde por ficar em hua ribeira; porém nos lugares de Zebral e Botica, se não colhe vinho algum. Produz muito bem castanha esta freguesia mas colhe-se muito pouco azeite.


Há juiz ordinário nesta villa de Ruivães, e Camera cujos officiaes, e juiz são elleitos por elleição de pilouros de tres em tres annos, por elleição que vem fazer o Doutor Ouvidor de Bragança, que remette a Sua Magestade que Deos goarde, e depois vem do dito Senhor elleição cada anno, dos que hão de servir os ditos cargos, e a nenhuà outra justiça estão sujeitos, excepto ao dito Doutor Ouvidor e a este he tão somente por appresentação ou agravo.

Hé esta vilia cabeça de Concelho, e não Couto, nem Behetria.

Não consta que desta, ou seu termo florescessem ou dela sahissem homens insignes por virtudes, letras ou armas.

Alguns annos passados houve feira franca nesta villa, em o dia vinte e seis de cada mes, porem foi se extinguindo em termos que ja ha tempos a nao ha nem nisso se cuida. Nao ha correio nesta terra, e se servem os moradores desta, dos correios da Cidade de Braga, e do da villa de Guimares, que hum e outro distão desta villa seis legoas.

Dista esta villa seis legoas da Cidade de Braga capital deste Arcebispado e sessenta e seis de Lisboa capital deste Reino.

Não tem esta terra privilegio algum ou antiguidades, nem couza digna de memoria, sendo tão somente ser da Serenissíma Casa de Bragança.

E quando ao vigessimo 3.º, 24, 25, 26 e 27 interrogatorios (contheudos) quanto à terra, nada hà que dizer, por nada haver do que se pergunta, nem mais que declarar, a respeito da terra.

Qto a Serra

Ha hua que corre por parte do lemite desta freguesia a que chamão a Serra da Cabreira a qual he muito alta no dito lemite, que de muita parte della se descobre o mar que fica distante della honze legoas.

Tem seu principio na Cruz de Real freguesia de São Julião de Taboaços, Concelho de Vieira, e chega à freguesia de Santa Maria de Salto, e tem de cumprido oito legoas, e de largura meia legoa em partes e em outras hua, pouco mais ou menos.


Nasce na lemitte da dita serra no sitio do Marco do Touro freguesia de Salto hum regato que corre de nascente ao poente, e dipois vai fender no lemitte desta freguesia de Ruivães ao Rio Câvado, inclinado ao norte o dito fenecimento, sem que o dito regato seja navegàvel, por ser como he pequeno e dispenhado.


Tem a dita serra ao longo desta da parte desta freguesia, tão somente o lugar de Zebral, e o de Espinho; e não consta que nesta haja fontes de propriedade rara, nem minas de metaes canteiros de pedras, ou outros materiaes de estimaçao.


He a dita serra tão somente povoada de matos, urzes, carqueija e carvalhos, sem que conste tenha ou produza outras plantas e ervas medicinais, e com alguã parte dela se fazem cavadas para centeio, que he unicamente o fructo, ainda que pouco, que nesta se colhe, e não hà nella mMosteiros, igrejas, ou imagens milagrosas.


Hé a dita serra de seu temperamento muito fria, aonde, por alta asenta mais a neve e nesta perdura muito tempo, principalmente no lemitte desta freguesia.


Nesta pastão muitos gados grandes, como bois e vacas, e tambem miudos como cabras e ovelhas, e no tempo do Verão nella dormem muitos dos ditos gados grandes e tambem nesta hà muitas perdizes, coelhos e alguns lobos que nesta tambem aonde se esconderam e criaram, e tambem alguns javalizes; e nella não hà lagôa algua, somente há nella hum fojo no lemitte desta freguesia a que chamão o fojo do Confurco, e mais dous no sitio de Chão de Pereiro lemitte do Concelho desta villa de Ruivães, aos quaes chamão os fojos de Bragâdos, que hum destes he pertencente aos moradores deste concelho, e o outro que està para a parte do poente, he dos moradores do concelho de Vieira, ainda que está no lemitte desta villa de Ruivães.


E não há mais que dizer quanto à Serra.

Quanto ao Rio


Passa ao longo desta freguesia de Ruivães hum rio, a que chamão o Cávado, que corre de nascente ao poente o qual nasce e tem seu principio no lugar de Codeçozo freguesia de Meixedo concelho da vilia de Montealegre desta Provincia de Trás os Montes, e distante desta villa seis legoas o dito nascimento.

No enquanto ao dito rio se não juntão outros regatos, não he caudalozo, porém dipois que nelle se junta o regato que vem de Pisões e entra no dito rio Câvado na freguesia de Parada de Outeiro, e o regato que vai da Mizarêlla que entra no dito rio Câvado entre esta freguesia e a de Santa Marinha de Ferrel, desde este sitio corre caudalozo e arrebatado por se ter congrossâdo com os ditos regatos, o qual corre todo o anno.

Não he navegável, nem capaz de embarcações, por ser despinhado em partes e em outras muitos fraqueados, e somente em alguns sitios se usa de barco para passar a gente de huà para outra parte.

Hé de curso arrebatado principalmente desde que nelle invocão os dous regatos de Pisões, e Mizarella de que assima faço menção, e assim vai, no mesmo curso arrebatado the chegar ao sitio da ponte de Prado, que a hi vai já mais manso aquanto, por ser terra mais cham e sitio mais largo.
Corre o dito rio, de nascente ao poente em toda a sua distancia.

Cria este rio muitos peixes, como são vôgas, escallos, trutas em quantidade e de bom tamanho, desde o seu nascimento the ao sitio de Parada de Bouro e ahi chegará já a vir lampreas, e salmões, os quaes se tem jà pescado no mesmo rio mais assima e por baixo desta freguesia de Ruivães.

Não há nelle pescarias nesta freguesia, nem nas immediatas ao pé della, só sim curiosos que usa da cana e chumbeira, trelhos, e algua rede de barrer para caçar os ditos peixes, não sendo nos meses prohibidos por direito.

Nesta freguesia, nem nas immediatas por onde passa o dito rio, não he este coutado por pessoa algua, mas sim para quem quizer caçar nelie por todo este.


Não tem o dito rio margens que se cultivem desde que nasce the que finaliza no mar, nem também arvoredo de fructos ou silvestre, nem as agoas delle tem virtude particular.


Sempre o dito rio teve, como tem o nome de Câvado.


Corre este rio Cãvado no mar na barra da villa de Esposende e de São Paio de Fão.


Neste sitio de Ruivães, e daqui para sima, e para baixo the ao sitio da Parada de Bouro distante tres legoas desta freguesia, não pode ser navegável pelos muitos fraguedos que tem e cachoeiras, que impedem o ser navegável, e ainda que os não tivesse só o podia ser barcos, por ser estreito e incapaz de embarcações maiores.


Tem o dito rio duas pontes de pedra em todo elle, hua na villa de Prado, e outra na villa de Barcellos, e hua de pão no lugar e freguesia de Fiães do rio, outra na da Villaça, e não tenho noticia de outra mais alguà.


Nesta freguesia de Ruivães lemitte della não tem o dito rio moinhos, lagares de azeite, noras, ou outro engenho algum.


Em nenhum tempo se tirou ouro das arêas do dito rio.


No enquanto o dito rio corre despinhado the Parada de Bouro, não se uza das suas agoas para a cultura dos campos, por se não poder tirar agoa para elles.


Tem o dito rio de distancia desde o seu nascimento, the que desinvoca no mar, desasete legoas, e passa pella villa de Prado, e pella villa de Barcellos, e por São Paio de Fão, que fica abaixo desta freguesia de Ruivães.

He o que posso informar, e o que averigoei na presente materia e por verdade que asigno aqui com os Reverendos Parocos vezinhos de S. Gens de Salamonde e de S. Vicente de Campos.


S. Martinho da Villa de Ruivães de Maio 23 de 1758.

O Reitor de Ruivães, o padre Miguel Barroso Dias.

Francisco Xavier Ferreira de Azevedo, o abade de S. Gens de Salamonde Francisco Xavier Ramos.




Para ler o texto na integra: (http://docs.google.com/Doc?id=ddgcwp8m_2gtmbrcds)




Actualizado em 22 de Outubro de 2014: inclusão do texto na íntegra. Na anterior plataforma não cabia no artigo, daí se ter colocado a ligação para o documento anexo. 

Comentários