O dia da limpeza do rego,
antecedendo o início do giro de Verão que começa no dia de S. João, é ainda a
maior manifestação comunitária da freguesia de Ruivães. Nesse dia – este ano a 23 de Junho – os consortes da levada do Poço de Rio Longo- que serve os lugares
da Botica, Vila, Quintã e Vale- juntam-se de madrugada para limpar a levada da
vegetação e demais detritos acumulados durante o Inverno e a Primavera;
facilitando assim a passagem da água que há-de regar as culturas de verão.
Tal como todas as outras
tradições comunitárias, também esta corre risco de extinção. São cada vez menos
as consortes que respondem à chamada. Uns porque a idade já não permite estes
trabalhos, o que é compreensível, outros na certeza de que alguém fará o
trabalho por eles, limitando-se a esperar pelo seu dia estando no talhadouro a
tornar a água para o seu campo.
Os trabalhos de limpeza da
levada sempre foram partilhados por todos os consortes havendo,
antigamente, penalidade para
quem faltasse à chamada. Eram outros tempos em que a vida no campo era central
ao quotidiano de todos e em que havia mais entreajuda entre todos. Hoje a vida
do campo passou a um plano secundário e das culturas de toda a propriedade
passou-se para um pequeno talhão onde se cultiva uma pequena horta para colher
apenas hortaliças e curiosidades.
Terá sido a levada do Poço
de Rio Longo a moldar o relevo e a propriedade dos lugares que serve, nos quase
mais de 8 quilómetros de canais principais, sensivelmente o dobro de canais
secundários, e cerca de 320 hectares de área irrigável. Comparando com as da
região, a levada do Poço de Rio Longo é a terceira maior levada dos quatro
distritos mais a Norte de Portugal, o que faz dela uma notável obra de
engenharia que os nossos antepassados construíram e lutaram para manter, até
judicialmente!
Dos seus 160 beneficiários
(dados de 2004) responderam à chamada deste ano cerca de 30 pessoas. Não
querendo estar aqui a contar cabeças nem a nomear o Manuel, o António ou o Joaquim que faltou, importa despertar
consciências para a necessidade de se manter viva esta tradição como forma de
mantermos viva a nossa terra.
Ruivães, 23 de Junho de
2018
Paulo Miranda