Limpeza da Levada do Poço de Rio Longo 2018






O dia da limpeza do rego, antecedendo o início do giro de Verão que começa no dia de S. João, é ainda a maior manifestação comunitária da freguesia de Ruivães. Nesse dia – este ano a 23 de Junho – os consortes da levada do Poço de Rio Longo- que serve os lugares da Botica, Vila, Quintã e Vale- juntam-se de madrugada para limpar a levada da vegetação e demais detritos acumulados durante o Inverno e a Primavera; facilitando assim a passagem da água que há-de regar as culturas de verão.
Tal como todas as outras tradições comunitárias, também esta corre risco de extinção. São cada vez menos as consortes que respondem à chamada. Uns porque a idade já não permite estes trabalhos, o que é compreensível, outros na certeza de que alguém fará o trabalho por eles, limitando-se a esperar pelo seu dia estando no talhadouro a tornar a água para o seu campo.
Os trabalhos de limpeza da levada sempre foram partilhados por todos os consortes havendo, antigamente, penalidade para quem faltasse à chamada. Eram outros tempos em que a vida no campo era central ao quotidiano de todos e em que havia mais entreajuda entre todos. Hoje a vida do campo passou a um plano secundário e das culturas de toda a propriedade passou-se para um pequeno talhão onde se cultiva uma pequena horta para colher apenas hortaliças e curiosidades. 
Terá sido a levada do Poço de Rio Longo a moldar o relevo e a propriedade dos lugares que serve, nos quase mais de 8 quilómetros de canais principais, sensivelmente o dobro de canais secundários, e cerca de 320 hectares de área irrigável. Comparando com as da região, a levada do Poço de Rio Longo é a terceira maior levada dos quatro distritos mais a Norte de Portugal, o que faz dela uma notável obra de engenharia que os nossos antepassados construíram e lutaram para manter, até judicialmente!
Dos seus 160 beneficiários (dados de 2004) responderam à chamada deste ano cerca de 30 pessoas. Não querendo estar aqui a contar cabeças nem a nomear o Manuel, o António ou o Joaquim que faltou, importa despertar consciências para a necessidade de se manter viva esta tradição como forma de mantermos viva a nossa terra.

Ruivães, 23 de Junho de 2018
Paulo Miranda

Comentários

Anónimo disse…
Uma comunidade que deixa morrer as suas tradições mais ancestrais, acabará por se ver totalmente descaracterizada e, portanto, igual a todas as outras.
Aquilo que é autóctone, que é nosso, que faz parte dos nossos usos e costumes tem mesmo que ser preservado, sob pena de a tão falada "globalização" que hoje aplaudimos... amanhã nos levar na sua voragem destruidora.
Isto aplica-se a este caso concrecto, mas é necessariamente extensivo a todo o Portugal, onde o que é bom, se perde, em troca de nada ou, pior ainda, de "importações" que até são nocivas à nossa cultura mais ancestral: estou a pensar no dia das bruxas (vulgo halloween), no pai natal e noutras idiotices afins.
São palermices com laivos de estupidez, mas acontece que se vão enraizando, ao passo que o que é nosso vai gradualmente desaparecendo. E não esqueçamos que estas ditas "novidades" têm como objectivo destruir os nossos valores religiosos, morais e sociais, outrora saudavelmente enraizados na nossa identidade.
Ruivanense Adoptivo
Anónimo disse…
Muito Bem dito. bom texto.