«O Senhor "Cunha"!»


 



«Quando era pequeno, em conversa com os amigos, vi­nha sempre à baila aquela pergunta sacramental “que queres ser quando fores grande”?
Ora, numa terra do interior e no tempo em que era, não tínhamos muitos exemplos em que nos basear. Por isso, uns queriam ser “dou­tores”, outros padre e outros ainda professores.
No meu caso, cedo se deu uma mudança brusca da aldeia para a grande cidade, e aí, embevecido com tanta coisa que desconhecia, o meu futuro ficou baralhado porque raro era o dia em que não aspirasse vir a ter uma profissão diferente. A minha fa­mília ria-se das mi­nhas op­ções, porque ora queria ser bombeiro, no dia se­guinte polícia, taxista, ma­rinheiro, aviador, enfim! Uma panó­plia de profissões, que levou a família a achar que o ideal era ir para a Casa Pia, onde ensinavam múltiplas profissões e se podia tirar vários cursos.
Lá me le­varam até Belém, para regressar com uma desilusão, pois não havia va­gas. A não ser que.. co­nhe­cessemos o senhor Cunha. Não conheciam. Ten­­tou-se então as Oficinas de São José, afamada escola de ofícios, mas lá vem uma vez mais à baila o senhor Cunha. Seguiu-se a “Fra­ga­ta de D. Fernando”, es­cola de marinheiros que desde os doze anos (a minha idade nessa altura) ali se alistando, teriam depois passagem chegados à adolescência para a Marinha de Guerra.
Mas…então, e o senhor Cunha? Não há cunhasi­nho, não há alistamentosi­nho!...
Nunca roguei tantas pragas a alguém como fiz a es­se senhor Cunha, tão poderoso e ninguém o conhecia!
Apareceu então e por fim uma hipótese. Uma tia conhecia uma freira que disse poder internar o menino num colégio interno, na Co­va da Iria em Fátima, de no­me “Refúgio da Mãe do Céu”, onde poderia tirar um curso ou aprender uma profissão. Ainda perguntei à tia: - « E o senhor Cunha? Não é preciso?»
Uff! Não era. E então, de Rui­vães com uns mesitos em Lisboa, lá fui parar à Co­va da Iria. Foram cerca de dois anos. Ali fui muito fe­liz, aprofundei a minha educação católica mas outros interesses começaram a povoar o meu espírito, porque nem curso nem profissão. Foi-me informado que chegado aos dezoito anos, ou entrava no semi­ná­rio ou deixava o colégio. Aproveitei então uma visita da minha mãe e impuz a minha vontade de deixar o colégio.
Ao longo da minha vida me cruzaria algumas vezes com esse asqueroso senhor Cunha, mas como ninguém alguma vez me disse onde pudesse encontrá-lo, nunca lhe pude dar um murro nos queixos.
Sejam felizes.»

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