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sábado, 27 de dezembro de 2025

«Ser Bombeiro, é...»


Vulgarmente, define-se bombeiro como a pessoa que tem por missão a ex­tinção de incêndios e que auxilia todos aqueles que foram vítimas de acidentes.

A verdade é que este é o seu trabalho, mas a definição parece ser redutora, quando muitos destes homens e mulheres colocam em risco a sua vida em benefício da sobrevivência dos outros. Uma profissão de bravura e coragem, que não se coaduna com uma simples definição, porque a sua grandeza e extrema importância são muito maiores. Mergulhando na história dos bombeiros, sabe-se que foram os he­breus e os gregos os primeiros povos a despertar para a importância do combate ao fogo. Para tal, criaram vigias noturnas responsáveis por rondas e pelo alarme em caso de incêndio. Também na antiga Roma havia grupos de pessoas que faziam o policiamento durante a noite, dando o alerta em ca­so de fogo ou outro tipo de acidentes.

Em Portugal, a história dos bombeiros inicia-se com a carta régia de D. Jo­ão I, datada de 1395. Nela podia ler-se: “em caso que se algum fogo levantasse, o que Deus não queria, que todos os carpinteiros e calafates venham àquele lugar, cada um com seu ma­chado, para haverem de atalhar o dito fogo. E que outros sim todas as mulheres que ao dito fogo acudirem, tragam cada uma seu cântaro ou po­te para acarretar água para apagar o dito fogo”. Ainda no nosso país, a his­tória das Associações de bombeiros inicia-se em 1868, com a criação da Com­panhia de Voluntários Bombeiros de Lisboa, que mais tarde passou a designar-se de Associação de Bombeiros Voluntários.
No nosso concelho, Vieira do Minho tem a sua As­sociação de Bombeiros, com uma secção em Ruivães com excelentes instalações que muito nos orgulha, pena é que tenha perdido o fulgor que teve inicialmente, mas que fazer? Já Camões dizia: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.
Toda a minha vida admirei os bombeiros, e trinta anos da minha vida profissional estiveram ligados a inúmeras Corporações que me levaram a percorrer o país de norte a sul, e em cada delas fiz excelentes amizades, e só lamento que os bombeiros voluntários não sejam uma instituição estatal como acontece na maioria dos países desenvolvidos. Como me chocava ver corporações a subsistir de cotizações, peditórios para a compra de uma ambulância, ou rifas para uma viatura. Enfim!
Saudações ruivanenses.
Manuel Joaquim F. de Barros
2025-10-14

«A importância de ser avô»




Tive a felicidade de conviver com os meus avós (paternos e maternos), mais ainda com os paternos, que por contin­gências da vida me criaram até aos 12 anos em Ruivães. Meu avô, João de Barros, o patriarca de uma grande família onde se incluía meu pai, e vindo de outra família de Rossas donde era natural (um de treze irmãos), marcou-me para toda a vida. Foi o meu “Guru”, ainda hoje me vêm à ideia muitos dos ensinamentos que ele me ministrou. Ora, eu que fiz recente­mente oitenta anos, e que tenho a felicidade de também ser avô, aos meus netos transmito muito do que meu avô me ensinou, e quando o faço recordo aquela figura cândi­da e doce quando me fazia avisos ou chamava a atenção de algo importante para a minha educação.
Esse homem extraordinário e figura mística de Ruivães, nas minhas crónicas o refiro muitas vezes, e hoje fui ao fundo do meu saber para o retratar em moldes atuais, sem destoar o que ele era e como era.
O “tio João Latoeiro”, era uma expressiva figura de ancião. A fronte larga e desafrontada de cãs, os olhos ainda vivos e penetrantes e em toda a fisionomia, permanentes indícios de habituais meditações e porventura de passados infortúnios, elevando aquele semblante muito acima da vul­garidade. Os anos ou, mais ainda que os anos, os pesares haviam subjugado nele a robustez de outros tempos; os hábitos de solidão que adquirira, a pouco e pouco lhe amoldaram o caracter até fazerem dele um desses tipos excecionais, que atravessam o mundo entre a estranheza de quantos o rodeiam, a ninguém permitindo sondar os mistérios que guardava consigo e para si, e criando para uso próprio regras de viver, sem atenção às convenções sociais.
“Tio João Latoeiro” era um enigma vivo, e eu lhe presto esta homenagem. Nasceu em Pombal (Rossas) em 19 de janei­ro de 1880, e faleceu em Ruivães igualmente a 19 de janeiro, mas de 1967. (Coincidência das coincidências, meu filho nasceu também em 19 de janeiro de 1976). Amei aquele homem a quem chamava “paizinho” (como era uso na época), e só temia não poder estar presente no seu funeral, porque estava a dias de embarcar para Timor, mas o Exército me permitiu ir a Ruivães despedir dele. Chorei como nunca chorei por ninguém.
Deus o tenha num bom lugar, porque era um bom homem.
Manuel Joaquim F. de Barros
2025-11-12

«Velhos? São os trapos!»


Oitenta anos, já?... Que é feito daquele rapazinho franzino, endiabrado, que palmilhava com um andar trôpego as ruas e calçadas de Ruivães até à exaustão, em busca de outros como ele para fazerem tropelias, ir à fruta, jogar às escondidas ou de fisga na mão atirar aos pássaros?


Sou eu! Cheguei a esta idade, após ter vivido muitas atribulações, muitos amores e desamores, cruzei alguns mares e oceanos, respirei o ar de três continentes e vivi em muitos locais, mas se evoco o que de melhor me aconteceu na vida, logo me vem à ideia a minha infância nessa terra minha amada que é Ruivães, que deixei aos doze anos para me aventurar por esse mundo fora.
Daqui para a frente, e enquanto por cá andar, como já passei por tudo, acabei com planos e projetos de futuro, vivo um dia de cada vez, sem temor ao fim dos meus dias, plenamente consciente de que não sou eterno, e o dia de prestar contas a Deus chegará.
A morte, que para muitos só pronunciar a pala­vra os assusta, a mim não me mete medo. Shakespeare referiu-se a ela afirmando que: “a morte é uma lei geral; tu­do o que vive tem de mor­rer passando pela vida a caminho da eternidade”. Também Sócrates (o fi­lósofo grego, não confundir) disse; “ninguém sabe o que se­ja a morte, ninguém pode afirmar que ela não se­ja para o homem o maior de todos os bens”.
Ouvimos muitas vezes falar na “reencarnação” (na qual eu, católico assu­mido acredito), pois ela é um “dogma”, ou seja um dos pontos fundamentais de uma crença religiosa ou filosófica, um conjunto de princípios fundamentais do Cristianismo incontestável e indiscutível.
Nós, católicos, temos a afirmação da reencarnação quando rezamos a oração que nos foi ensina­da, o “Credo”, onde se afir­ma que Jesus Cristo após ressuscitar “Voltará um dia para julgar os vivos e mortos, e o seu reino não terá fim”. Portanto a nossa morte é física, mas não espiritual, voltaremos à vida para sermos julgados. Nessa altura, sim há que temer, se o nosso comportamento na terra ofendeu a Deus. Concluindo, tenho a consciência tranquila, sou um ve­lhinho imaculado, temente a Deus sim, mas de consciência tranquila.
Saudações aos meus conterrâneos – principalmente aos “velhos”.

Manuel Joaquim F. de Barros
2025-12-12

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

«Um ilustre Ruivanense desconhecido»

 




«Domingos Manuel Pereira de Carvalho Abreu, Juiz, nasceu em Ruivães em 23 de Agosto de 1727, faleceu em Mosteiro em 1873. Este ruivanense adquiriu projecção e prestigio nacionais, devido ao seu desempenho como magistrado e defesa da liberdade e do trono le­­gítimo, sendo reconheci­do e agraciado pelo Rei em 1845, 1858 e1860, ten­do dignificado extraordi­na­riamente Ruivães.

O pai de Domingos de Abreu, António José Gon­çal­ves Pereira de Carvalho Abreu, foi um destacado herói da resistência às in­va­sões francesas comanda­das pelo General Soult. Domingos de Abreu frequentou a Faculdade de Leis de Cànones, foi nomeado Juiz de Fora de Ali­­jó e louvado pelo seu de­­sempenho, por Portaria Ré­gia de Abril de 1923, sen­do de seguida nomeado Juiz de Fora de Vila Real. Não desempenhou funções em Vila Real porque aderiu à Causa Liberal. Durante dez anos andou fugido e em luta com os absolutistas. De facto, entre 1823 e 1833, disfarçado de mendi­go andou a monte e por lu­gares afastados, devido ao seu amor à liberdade e ao regime Constitucional.
Reposto o Governo Consti­tu­cional, Domingos Abreu é nomeado, em 1883, corre­gedor de Barcelos, em atenção aos seus mereci­mentos e perseguição que so­freu do governo usur­pa­dor. Foi ainda juiz em Bragança, Cabeceiras de Basto, Ponte de Lima, Amarante e Póvoa de Lanhoso. Dada a qualidade de um ma­gistrado sábio, de modelo de concisão e elegância li­terária, as principais sentenças foram publicadas na Gazeta dos Tribunais, em separata com o título “Sentenças Civis e Crimes do Dr. Domingos Manuel Pereira de Carvalho Abreu”.
Domingos de Abreu, em 1845 foi nomeado por Portaria Régia Cavaleiro de Ordem de Cristo; em 1853 foi nomeado por Decreto Régio Comendador da Ordem de Cristo; em 1860 foi nomeado por Carta Régia Comendador da Ordem de Nossa Senhora de Vila Viçosa. Enfim! Pobre terra, com um potencial humano tão riquíssimo, e que por inoperância de quem nos governa desconhece esses valores porque não há o mínimo interesse em fazer um levantamento histórico da nossa vila. Tão ilustre figura, não merecia o seu nome numa rua de Ruivães?
Aconselho os meus conterrâneos a verem o programa diário da RTP 1 ”O Preço Certo”, e ficarão como eu fico desgostosos por ver as aldeias da mais pequena dimensão e do interior cujas juntas de freguesia patrocinam a ida dos locais ao concurso, oferecerem ao apresentador brochuras, livros com o historial da terra, e que grande divulgação é feita nesse programa! Então pergunto; se alguém de Ruivães for ao programa, que lhes proporciona a nossa junta? Nada de nada!
Saudações ruivanenses.»
Manuel Joaquim F. de Barros

«O mutilado de Ruivães»


 

«Mário Moutinho e A. Sousa e Silva, pouco dirão aos ruivanenses, mas trata-se de dois historiadores que levaram anos a elaborar a mais completa biografia da nossa terra, romanceada ao estilo de Castelo Branco com acção em Ruivães entre as invasões francesas e as guerras civis.

Não eram de Rui­vães (presumo que já te­nham falecido, visto o seu tra­balho ter sido elaborado em meados do século passado), eram sim especialistas na matéria, pois para se iden­tificarem com a nossa vi­la aqui assentaram arraiais a convite de um tal senhor Ma­nuel Lagarto de Vale, que lhes ofereceu estadia e não só. Também foi base de elucidação da muita recolha que fizeram, ao ponto de lhe haverem dedicado a obra, em cuja dedicatória dele afirmam ter sido ele um «homem probo, bondoso, e autêntico repositório da história local, que muito nos ajudou com as suas “achegas”» In­titulado “O Mutilado de Rui­vães”, veio a lume em 1980, edi­ção da Livraria Cruz de Bra­ga, não sem que antes jazessem muitos anos numa gaveta. E assim os au­tores nos deixaram uma obra que é um juízo de valor didáctico-pedagógico, e da maior importância cultural e sentimental, que todos os ruivanenses deviam ler. Para fazerem ideia de como eles viram a situação do país nessa data já longínqua, atentem a seta descrição, que a mim me impressionou;
« A história das pequenas terras vai ficando esquecida diante de certos fenómenos sócio-económicos, derivados do urbanismo avassalador, apagaram-se da lembrança dos homens os feitos dos seus antepassados; olvidam-se os factos de outrora; morra gesta da tradição, a prática das virtudes ancestrais, a nobreza dos bons costumes regidos na autoridade de prin­cípios morais ainda hoje indiscutíveis que foram as pedras com que se construiu a Nação, a fizeram grande e a levaram a expandir-se pelo Mundo.
Morreu no coração dos homens a poesia que envolve as coisas belas que o Passado nos legou; secaram-se as fontes que nasciam da alma e corriam límpidas para o mar da fantasia e do sonho, mas que ajudavam a viver. Hoje, tudo se banalizou, tudo está uniformizado, plastificado, amorfizado que uma sociedade de consumo irrelevante e pletórica de bem-estar vai fazendo cair na clareza dos sentimentos e das atitudes, na tibieza dos caracteres e na cobardia colectiva, onde um materialismo intolerável e desenfreado, que necessariamente a função do chamado «progresso social», despaísa, amolece e corrompe o espirito e a consciência nacionais, que nestes últimos anos sofreram uma deterioradora aceleração, graças ao consumo de droga, da pornografia e do sexualismo.
Por isso julgam meritório todos os trabalhadores desta natureza, porque a história não é atributo das chancelarias, dos salões ou das gran­des cidades, nem tampouco a animam apenas os grandes próceres da Política; ela é tam­bém feita pelo Povo e es­crita com o seu sangue; e o palco são as suas aldeias e os seus campos, e ele a maior vítima dos erros, das la­cunas - e dos crimes – dos grandes senhores da Terra.
Moldado ao jeito clássico, como não podia deixar de ser, o romance não tem pre­­­tenções nem aspira fazer carreira ou escola; visa somente estimular nos mais novos o gosto pela historia das sua terras, tão esquecidas andam agora elas; e este nosso esforço é apenas um modesto contributo naquele sentido e, se quiserem, um exemplo para que outros façam melhor.
É este o desideratum, e, se o alcançarem, os autores sentir-se-ão satisfeitos».
A nossa terra, é rico filão de história, folclore, etc. Que tesouros ocultos nas ruí­nas, nas suas ruínas, nas suas pedras musgosas, nos castros, nas igrejas, no linguajar das suas populações, nos arquivos e no próprio sub-solo? Só esperam que novos cabouqueiros os venham desentranhar, ou outros obreiros apareçam a ceifar na messe que é rica e vasta. É claro que o livro contém também e essencialmente dados identificativos de Ruivães enquanto cabeça de concelho da Casa de Bragança, até 1834, com o nome de “Villar de Vacas”.
Saudações ruivanenses.»

Manuel Joaquim F. de Barros


Retirado d' O Jornal de Vieira nº 1173 de 15 de Abril de 2023

sábado, 24 de abril de 2021

«O Senhor "Cunha"!»


 



«Quando era pequeno, em conversa com os amigos, vi­nha sempre à baila aquela pergunta sacramental “que queres ser quando fores grande”?
Ora, numa terra do interior e no tempo em que era, não tínhamos muitos exemplos em que nos basear. Por isso, uns queriam ser “dou­tores”, outros padre e outros ainda professores.
No meu caso, cedo se deu uma mudança brusca da aldeia para a grande cidade, e aí, embevecido com tanta coisa que desconhecia, o meu futuro ficou baralhado porque raro era o dia em que não aspirasse vir a ter uma profissão diferente. A minha fa­mília ria-se das mi­nhas op­ções, porque ora queria ser bombeiro, no dia se­guinte polícia, taxista, ma­rinheiro, aviador, enfim! Uma panó­plia de profissões, que levou a família a achar que o ideal era ir para a Casa Pia, onde ensinavam múltiplas profissões e se podia tirar vários cursos.
Lá me le­varam até Belém, para regressar com uma desilusão, pois não havia va­gas. A não ser que.. co­nhe­cessemos o senhor Cunha. Não conheciam. Ten­­tou-se então as Oficinas de São José, afamada escola de ofícios, mas lá vem uma vez mais à baila o senhor Cunha. Seguiu-se a “Fra­ga­ta de D. Fernando”, es­cola de marinheiros que desde os doze anos (a minha idade nessa altura) ali se alistando, teriam depois passagem chegados à adolescência para a Marinha de Guerra.
Mas…então, e o senhor Cunha? Não há cunhasi­nho, não há alistamentosi­nho!...
Nunca roguei tantas pragas a alguém como fiz a es­se senhor Cunha, tão poderoso e ninguém o conhecia!
Apareceu então e por fim uma hipótese. Uma tia conhecia uma freira que disse poder internar o menino num colégio interno, na Co­va da Iria em Fátima, de no­me “Refúgio da Mãe do Céu”, onde poderia tirar um curso ou aprender uma profissão. Ainda perguntei à tia: - « E o senhor Cunha? Não é preciso?»
Uff! Não era. E então, de Rui­vães com uns mesitos em Lisboa, lá fui parar à Co­va da Iria. Foram cerca de dois anos. Ali fui muito fe­liz, aprofundei a minha educação católica mas outros interesses começaram a povoar o meu espírito, porque nem curso nem profissão. Foi-me informado que chegado aos dezoito anos, ou entrava no semi­ná­rio ou deixava o colégio. Aproveitei então uma visita da minha mãe e impuz a minha vontade de deixar o colégio.
Ao longo da minha vida me cruzaria algumas vezes com esse asqueroso senhor Cunha, mas como ninguém alguma vez me disse onde pudesse encontrá-lo, nunca lhe pude dar um murro nos queixos.
Sejam felizes.»

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

“Ruivanês”!

 


“Ruivanês”!

           

Tenho o pressentimento de que quanto mais avanço na idade, mais me vem à lembrança a minha infância, toda ela vivida em Rui­vães, e o meu coração trans­borda com essa evocação.
Um dia parti, ainda ra­pazinho, trocando a vida de aldeia pela grande urbe, e muito me custou adaptar nalguns aspectos, sendo o mais dificil o sotaque tipicamente minhoto que era mo­ti­vo de chacota.


Carregava nos “esses”, tro­­cava os “vês” pelos “bês”, tudo que envolvia o “che” era bem carregado.
Os anos passaram, e aos poucos acabei por me integrar linguisticamente, tal co­mo noutras situações.
Agora, vem-me à lembrança a linguagem com que aprendi a falar em Rui­vães, e nem mesmo ao frequentar a escola se como é natural corrigi muita coisa, o sotaque permaneceu e acompanhou-me por muitos anos.
Era de facto uma linguagem estranha, e se hoje se empregassem a maioria des­ses termos, estas últimas gerações não perceberiam patavina.
Pena é, que nenhuma en­ti­dade tenha tido o cuidado de elaborar um registo desse pseudo dialeto, tal como do cancioneiro, de usos e costumes e outros elementos identificativos de uma região e de um povo, e assim se perde um patrimonio histórico e moral que devia ser preservado.
Essas falas, estou em crer que em parte se devem à proximidade da Galicia, porque alguns sinonimos e terminologias de palavras, são comuns ao galego. Prova disso, numa das minhas idas à Galicia, levei um ras­panete em Orense quan­­do me expressei em caste­lha­no (que domino bem) e o su­geito ao topar que eu era por­tuguês, disse-me meio ofendido em “portugalego”:
- Amigo; aqui na Galicia se é português fale em por­tu­guês! Entendemo-lo melhor do que em castelhano.
Aprendi a lição, e vejamos alguns exemplos de ori­gem galega que em Rui­vães empregavamos; “Ca­chi­­­cha” (porcaria), “chi­cha” (car­­ne), “guicho” (esperto), “tri­­lhar” (magoar), “quilhar” (tra­mar), “assistar” (saltar, do tipo «uma fulme­ga as­sis­tou-me para o olho»)”. Mais ain­da, “es­ca­bichar” (raspar), “es­car­rachar” (abrir as per­­nas com uma que­da), “pin­char” (saltar), “espichar” (sal­­picar”), “ati­lho” (fio), “en­ga­ranhar” (mãos parali­za­­das pelo frio), “esbugalhar” (ar­­regalar os olhos), “car­ra­nha” e “moncos” (ranho), etc.
Outras palavras eram pro­nunciadas que hoje não se utilizam, como “cisco” (im­pureza na vista), “bulha” (confronto de porrada), “be­gueiro” (burro), “esga­çar” (es­forçar), “arremedar” (imitar gozando), etc.
A estas expressões e terminologia de fala na nossa vila, porque não considerá-las um dialeto local a que por exemplo poderiamos chamar “ruivanês”.
E termino com uma expressão 100% espanhola, mas que muito se utilizava em Ruivães no meu tempo. - “Canté!...” (Oxalá!...)
Manuel Joaquim F. Barros
2021-01-29